MPF investiga impactos de projeto de mineração na Vila Bom Jesus, em Canaã dos Carajás (PA)

O Ministério Público Federal (MPF) realizou uma diligência na Vila Bom Jesus, em Canaã dos Carajás, para apurar denúncias de impactos socioambientais atribuídos à operação do Projeto Sossego e à implantação do Projeto Bacaba, ambos da mineradora Vale. Durante a visita, moradores relataram prejuízos à agricultura, à pesca, à saúde e ao modo de vida da comunidade.

A inspeção foi conduzida pelo procurador da República Igor Spindola, que ouviu moradores, lideranças comunitárias, representantes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Segundo o MPF, o objetivo foi reunir elementos que possam subsidiar futuras medidas judiciais para garantir os direitos da população.

Antes da reunião, a equipe do MPF esteve nas proximidades da mina do Projeto Sossego e verificou a curta distância entre a operação minerária e a comunidade. Durante a visita, foram observadas plantações comprometidas e intensa poeira proveniente da atividade de mineração.

Moradores relatam prejuízos à agricultura e à saúde

Os moradores afirmam que explosões com uso de explosivos provocam tremores que causam rachaduras em residências e levantam grandes nuvens de poeira, que atingem a vila, principalmente durante a noite.

Segundo os relatos, a produção agrícola foi severamente afetada. Hortaliças como alface e couve estariam sendo cobertas por resíduos, comprometendo tanto o consumo quanto a comercialização. Também foram citadas perdas na criação de animais.

Durante a reunião, moradores relataram preocupação com o aumento de doenças respiratórias, problemas gastrointestinais e casos de câncer, que associam à possível contaminação do ar e da água. Eles também criticaram os Estudos de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), afirmando que a Vila Bom Jesus não foi considerada como Área de Influência Direta (AID) dos empreendimentos.

Pescadores denunciam restrições de acesso ao Rio Parauapebas

Outra reclamação apresentada ao MPF envolve a atividade pesqueira. Pescadores artesanais denunciaram que estariam sendo impedidos de acessar o Rio Parauapebas, principal fonte de alimento e renda da comunidade.

De acordo com os depoimentos, haveria apreensão de motores, canoas, redes e outros equipamentos de trabalho, além de abordagens consideradas truculentas por parte de seguranças e guardas responsáveis pela fiscalização da área.

MPF prepara estudo técnico

O Ministério Público Federal informou que mantém, desde 2023, um procedimento para investigar os impactos da mineração na Vila Bom Jesus.

Como parte das investigações, o órgão articula a realização de um estudo técnico independente em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), com apoio financeiro já assumido pela Prefeitura de Canaã dos Carajás.

Segundo o procurador Igor Spindola, a pesquisa deverá contar com biólogos, engenheiros sanitários e antropólogos para avaliar os impactos ambientais, sociais, econômicos e culturais sofridos pela comunidade.

Com base nos resultados, o MPF pretende definir as medidas cabíveis para assegurar os direitos dos moradores e cobrar eventuais ações de mitigação e compensação.

A reportagem mantém espaço aberto para manifestação da Vale sobre as denúncias apresentadas pelos moradores e pelo MPF.

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