Acidente na Mina do Sossego: morte de trabalhador expõe desafios de segurança em atividade crítica; causas estão sendo investigadas

Morte de trabalhador da U&M durante atividade de manutenção levanta questionamentos sobre inspeção de equipamentos, análise de riscos, supervisão e cumprimento dos protocolos de segurança

O trabalhador Iago Lima, funcionário da empresa U&M, morreu neste domingo (23) após um grave acidente de trabalho ocorrido na Mina do Sossego, em Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará. Iago exercia a função de inspetor de manutenção e já trabalhava na U&M havia mais de cinco anos.

Passo a passo que circula sobre o acidente não foi confirmado pela Vale

Um material com uma sequência ilustrativa da possível dinâmica do acidente chegou à reportagem e apresenta uma operação envolvendo uma escavadeira, um caminhão Munck, uma cinta de içamento e a queda de um componente sobre o trabalhador.

O conteúdo descreve, entre outros elementos, a possibilidade de dano ou desgaste pré-existente na cinta, seguido pelo rompimento do acessório e pela queda da carga.

Entretanto, diante da manifestação oficial da empresa, é necessário fazer uma correção importante na informação anteriormente apresentada: a Vale não confirmou ter produzido, fornecido ou emitido esse passo a passo como análise do acidente ocorrido na Mina do Sossego.

A empresa informou oficialmente apenas que lamenta a morte do trabalhador, que está oferecendo apoio à U&M e à família e que as causas da ocorrência estão sendo apuradas pelas autoridades competentes.

Dessa forma, o material ilustrativo não deve ser apresentado como documento oficial da Vale nem como conclusão da empresa sobre as causas do acidente.

A reportagem mantém a informação sobre o conteúdo do material exclusivamente como elemento que circula relacionado à ocorrência, sem atribuir sua autoria à Vale.

Essa distinção é fundamental porque, neste momento, não há manifestação oficial da Vale confirmando que o rompimento da cinta, desgaste do acessório ou qualquer outra circunstância descrita no material tenha sido efetivamente a causa do acidente.

Material técnico é atribuído à Vale, mas mineradora desmentiu por meio de nota

Durante a operação, Iago estava em uma área considerada linha de fogo, ou seja, uma região que poderia ser atingida em caso de queda ou movimentação inesperada da carga. O material aponta como fator precursor um dano pré-existente ou desgaste na cinta de içamento. Durante a atividade, o acessório se rompeu, provocando a perda da sustentação da carga, que caiu sobre o trabalhador.

O material técnico que apresenta a sequência do acidente é atribuído à Vale, conforme as informações encaminhadas à reportagem. A autoria e a origem formal do documento, entretanto, ainda precisam ser confirmadas.

A confirmação será necessária para estabelecer se o conteúdo corresponde a uma análise oficial da ocorrência, uma simulação técnica, um material interno de treinamento ou outro documento relacionado à segurança operacional.

Por isso, a reportagem não trata o conteúdo como material técnico atribuído à Vale.

Atividade crítica exige rigorosa supervisão

Operações de içamento, movimentação de cargas e manutenção de equipamentos de grande porte são atividades críticas, de alto potencial para acidentes graves e fatais.

Nessas operações, a segurança depende de uma cadeia de controles que começa antes mesmo da execução do serviço: planejamento, avaliação dos riscos, inspeção dos equipamentos e acessórios, definição das barreiras de segurança, autorização da atividade e acompanhamento da liderança.

A investigação deverá, portanto, ir além da pergunta sobre por que a cinta rompeu.

Será necessário entender por que uma eventual condição de desgaste teria chegado à operação e se os mecanismos de prevenção existentes foram capazes de identificá-la.

Falha de inspeção?

Um dos principais pontos que precisam ser esclarecidos é a condição da cinta utilizada no içamento.

Caso seja confirmada tecnicamente a existência de desgaste ou dano pré-existente, será necessário verificar se o acessório passou por inspeção antes da atividade, quem realizou a inspeção, quais critérios foram utilizados e se havia registros dessa verificação.

Também deverão ser analisadas as condições dos equipamentos envolvidos.

As máquinas estavam com a manutenção preventiva em dia? Os materiais e acessórios estavam devidamente inspecionados? Existia algum histórico de desgaste? Alguma condição fora do padrão havia sido identificada?

São perguntas essenciais para reconstruir a cadeia de eventos que terminou com a morte de Iago Lima.

Falha na análise de risco?

Outro ponto fundamental será a análise de risco realizada antes do serviço.

Em atividades de alto risco, a análise precisa considerar não apenas a forma de execução, mas também os diferentes cenários que podem provocar acidentes.

No caso de uma operação de içamento, isso inclui a possibilidade de rompimento de cintas, queda da carga, deslocamento inesperado, falha de equipamentos, perda de estabilidade e posicionamento inadequado dos trabalhadores.

A investigação deverá verificar se esses riscos foram identificados e quais medidas foram estabelecidas para eliminá-los ou mitigá-los.

Linha de fogo: não se pode expor o trabalhador ao risco

A presença do trabalhador na chamada linha de fogo é outro ponto que deverá ser cuidadosamente analisado.

Linha de fogo é a área na qual uma pessoa pode ser atingida por uma carga, equipamento, objeto ou energia liberada de maneira inesperada.

Em atividades de içamento, o trabalhador deve permanecer fora da trajetória potencial da carga e das áreas onde uma eventual falha possa produzir impacto.

O princípio de segurança é objetivo: não se pode expor o trabalhador a um risco que possa ser eliminado ou controlado.

No caso de Iago, será necessário esclarecer por que ele estava naquele ponto da operação e quais barreiras estavam estabelecidas para impedir sua exposição.

RACs: Requisitos de Atividades Críticas

A investigação também deverá considerar os RACs — Requisitos de Atividades Críticas, voltados ao controle de operações com elevado potencial de acidentes graves e fatais.

Os requisitos não devem existir apenas como procedimentos documentais. Precisam ser efetivamente aplicados durante o planejamento e a execução da atividade.

Isso envolve inspeção de equipamentos e acessórios, capacitação, definição de responsabilidades, isolamento de áreas, controle operacional e acompanhamento da liderança.

Será necessário verificar quais RACs eram aplicáveis à atividade e se os respectivos controles foram cumpridos.

CRM: Controle de Riscos Críticos

Outro elemento que merece atenção é o CRM — Controle de Riscos Críticos, apresentado como uma metodologia de gerenciamento voltada ao acompanhamento e controle de situações com potencial para provocar acidentes graves e fatais.

Conforme informações levantadas pela reportagem, o CRM é utilizado como ferramenta de gerenciamento, com participação da liderança e acompanhamento das condições da atividade.


A metodologia busca permitir a identificação antecipada de situações de risco e a adoção de medidas de controle antes que uma condição insegura evolua para um acidente.

O gerenciamento pode considerar diferentes variáveis relacionadas à atividade e às condições do trabalhador.

Em uma operação de içamento, por exemplo, podem ser avaliadas as condições dos equipamentos, integridade dos acessórios, capacidade de carga, posicionamento dos trabalhadores, isolamento da área, trajetória potencial da carga e atuação da supervisão.

O CRM poderia ter identificado uma condição de risco?

Essa é uma das perguntas que deverão ser respondidas pela investigação.

Será necessário verificar quais controles estavam previstos, quais foram efetivamente realizados e se alguma condição relacionada à cinta, à carga ou ao posicionamento dos trabalhadores havia sido identificada antes do acidente.

Também deverá ser analisado se as informações obtidas nas inspeções chegaram à liderança e se havia mecanismo efetivo para interromper o serviço diante de uma condição fora do padrão.


Isso, entretanto, não significa afirmar que houve falha no CRM. Somente a investigação técnica poderá determinar se os controles foram corretamente aplicados e se eram suficientes.

Supervisão em nível operacional

Em uma atividade crítica, a supervisão representa uma das principais barreiras de segurança.

A apuração deverá identificar quem autorizou o serviço, quem realizou ou validou a análise de risco, quem verificou os equipamentos e acessórios e quem acompanhava diretamente a execução.

Também deverá ser analisado se havia supervisão suficiente diante do volume e da complexidade das atividades realizadas naquele momento.

As causas poderão apontar eventualmente para falhas em nível de supervisão, mas qualquer conclusão nesse sentido precisa ser sustentada por uma investigação técnica.

PTS e ordens de serviço especiais

A PTS –  Permissão de Trabalho Seguro também deverá fazer parte da apuração.

Em atividades que exigem controles especiais, a PTS estabelece condições, riscos, medidas preventivas e responsabilidades antes da execução.

Será necessário verificar se havia PTS para a atividade realizada no momento do acidente, quais riscos foram registrados e se as condições encontradas no local correspondiam ao planejamento.

Dependendo da natureza do serviço, também podem existir ordens de serviço especiais, destinadas a reforçar os controles em determinadas operações.

O trabalhador pode recusar uma condição insegura

Outro princípio fundamental da segurança do trabalho é que o colaborador, ao identificar uma condição fora dos padrões, deve comunicar o risco e utilizar os mecanismos previstos para interromper ou corrigir a situação.

A NR-1 estabelece princípios relacionados ao gerenciamento de riscos ocupacionais. A NR-10, por sua vez, trata especificamente da segurança em instalações e serviços em eletricidade, quando aplicável à atividade.

O princípio preventivo, contudo, é mais amplo:

nenhuma atividade deve prosseguir quando houver exposição desnecessária do trabalhador a um risco que possa ser eliminado ou controlado.

Parada geral da usina aumenta a complexidade operacional

O acidente ocorreu durante um período de elevada complexidade operacional na Mina do Sossego, marcado pela parada geral da usina.

Paradas gerais concentram grande quantidade de serviços de manutenção, envolvendo trabalhadores próprios, empresas contratadas, equipamentos pesados e diferentes atividades simultâneas.

Esse cenário exige coordenação ainda mais rigorosa.

Quanto maior o número de equipes, máquinas e serviços acontecendo ao mesmo tempo, maior a necessidade de comunicação, planejamento, isolamento de áreas e supervisão.

Aceleração das atividades exige atenção redobrada

Informações obtidas pela reportagem também apontam que, a partir de agosto, determinadas obras e atividades relacionadas ao S11D costumam entrar em um período de maior aceleração.

O aumento do número de trabalhadores, equipamentos, empresas contratadas e frentes de trabalho exige reforço proporcional nos mecanismos de gerenciamento e controle dos riscos.

Em operações dessa magnitude, acelerar a produção sem ampliar a capacidade de supervisão e controle pode aumentar a vulnerabilidade operacional.

Uma realidade de extrema vulnerabilidade

A mineração envolve trabalhadores que lidam diariamente com equipamentos de grande porte, máquinas pesadas e componentes que podem alcançar várias toneladas.

Há relatos e registros de acidentes envolvendo esmagamentos, amputações e outras lesões graves em operações dessa natureza.

Por isso, cada ocorrência precisa ser analisada não apenas para identificar a causa imediata, mas para compreender onde a cadeia de prevenção deixou de funcionar.

No caso da Mina do Sossego, o rompimento da cinta pode representar apenas o ponto visível de uma cadeia de eventos que precisa ser reconstruída pela investigação.

É necessário saber se houve falha na inspeção, manutenção, análise de risco, planejamento, isolamento da área, cumprimento dos RACs, PTS, supervisão ou execução da atividade.

Pode haver mais de uma causa contribuindo para o resultado.

As perguntas que precisam de resposta

A pergunta central não deve ser apenas:

Por que a cinta rompeu?

É preciso perguntar também:

Por que uma eventual condição de desgaste não foi identificada antes da operação?

A análise de risco contemplava o rompimento da cinta e a queda da carga?

Os controles previstos foram efetivamente executados?

Por que o trabalhador estava em uma posição na qual poderia ser atingido caso a cinta rompesse?

A área de risco estava devidamente isolada?

A liderança tinha conhecimento das condições reais da atividade?

Havia mecanismos suficientes para interromper o serviço diante de uma condição insegura?

São respostas como essas que poderão revelar se o acidente foi resultado de uma falha pontual ou da combinação de diferentes vulnerabilidades.

Segurança não pode existir apenas no papel

Em atividades críticas, procedimentos, RACs, PTS, inspeções, metodologias de gerenciamento de riscos e supervisão são fundamentais. Mas somente cumprem sua função quando conseguem impedir que uma condição perigosa alcance o trabalhador.

A segurança precisa estar presente antes, durante e depois da atividade.

Precisa estar na inspeção da cinta, na manutenção da máquina, na análise de risco, no posicionamento da equipe, na supervisão e, principalmente, na decisão de interromper o serviço quando alguma condição estiver fora do padrão.

A morte de Iago Lima, profissional que dedicou mais de cinco anos à U&M e exercia a função de inspetor de manutenção, precisa ser rigorosamente investigada.

As causas e eventuais responsabilidades ainda deverão ser estabelecidas pelos órgãos competentes e pelas apurações técnicas. Não cabe, neste momento, antecipar culpados.

Mas a morte de um trabalhador em uma atividade crítica deixa uma pergunta que precisa ser respondida:

qual barreira de segurança falhou para que uma condição de risco chegasse ao ponto de tirar uma vida?

Essa resposta é fundamental não apenas para esclarecer a morte de Iago Lima, mas para evitar que outro trabalhador seja colocado diante da mesma vulnerabilidade.

A produção pode parar. O equipamento pode esperar. O serviço pode ser refeito. A vida do trabalhador, não.

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